Esquecimentos

Esquecimentos




  Sopa de letrinhas com caldo de feijão.  Sair dirigindo por uma autoestrada.  Dormir no deserto.  Gosto de dançar na neve. Já que isso não me lembra de absolutamente nada.
Gosto de andar em círculos dentro de casa.  Já que isso não lembra nada.   Sem remeter a lugar  ou cicatriz.  Gerar esquecimento. Coisas que amei. Coisas que perdi.

  Comida tailandesa.  Móveis sob medida.  Preocupar-se  om a  moda ou com o tempo lá fora. Me sinto segura quando penso em coisas que não lembram nada. Coisas que eram para ser para sempre, não duraram uma estação. Coisas que julguei sagradas, não passaram de uma fase.

  Tento não me prender em coisas que precisarei esquecer. Assim como tenho receio de me em me apegar em você de novo.
Não quero aprender coisas que terei que esquecer.  Assim como tenho receio de me perder na curva do teu sorriso. Acabar dormindo de colchinha com a  solidão numa tarde de domingo.

  Gosto de conversa fiada. De discursos enlatados.  Da polarização da direita e da  esquerda. Adoro mentes quadradas. Tenho tesão pela hipocrisia e cosias radicais Assim como seitas satânicas. Já que isso não me lembra absolutamente nada.

  Coisas que cultivei. Coisas que abandonei. Mas não quero aprender o que vou ter que esquecer. Não quero amar o amor que não está sendo mais servido.

  Assim como não quero embarcar de novo numa relação feita de espaços, silêncio estranhos e solidão a dois.

   Por favor não me molde.  Adoro o seu seu jeito bagunçado e constante. Só não me pergunte do meu passado. Pouco importa o caminho que percorri. Assumi os meus pecados, perdoei alguns deslizes.  Faça do nosso abraço uma morada.

  O segredo está em manter o teu sorriso com a curva para cima e nunca invertido.
Coisas que amei,. Coisas que abandonei. Coisas que conquistei,

   Eu quero aprender com você, cosias que ainda desconheço.


  Se isso tudo der errado. Esquecimentos.

Crônica: Era Sábado


Era Sábado



Era sábado, hora do almoço. O centro aos meus pés. Cidade repleta de multidões. Eu ali No vazio de estar sozinha mesmo acompanhada. Andando de mãos dadas com a minha solidão de estimação.

  Mente hiperativa. Ansiedade que bate no teto . A fuga inevitável frente ao encontro.  A vida é real e de viés.  Escolhas e consequências. Viver é equilibrar  o suportar e o existir. Cruzo os dedos para esbarrar em um sorriso que não esteja invertido. Risada agridoce. Abraço morada.  A paz de um olhar avassalador.

Pela janela surge a ideia.  Trilha sonora.  Bolero. Um tango no meio da  esquina nada democrática.  Me senti tão sozinha. Refém do meu passado. Emaranhada pelos meus próprios nós.  Era sábado.  Almoço ao acaso.  Sushi como cardápio.  A complicação de comer de palitinhos. O nervosismo de conhecer quem parecia já conhecer.  Os estranhos se entranhando. Numa dança esquisita que se chama atração.

 Intimidade doida que surge sem dar aviso. Vontade de largar o mundo.  Deixar tudo em reticências. Era sábado e eu pensando em fugir para qualquer lugar.  Onde estivesse mais perto de você e mais longe de mim.  Era amor antes de dizer olá.   Era sábado. Era o amor antes de ser amor. 

O jardim do poeta. Testemunha do beijo ansioso.  As mãos desajeitadas ao encontro de um espaço. Alivio para a inquietação.  Porto  a beira do abismo. A Igreja das Dores.  Banheira de vitórias régias. O poeta a espreita dos amantes.  Nossos silêncios fizeram um barulho imenso.  Encontro dos nossos vazios.  Os mesmos traumas. Os mesmos caminhos. Vontade de transcender.  Um do outro.  Um ao outro. Sentir o gosto. Experimentar sem desgosto.  Saber que Agosto está chegando.  Mas agora é sábado. Tudo vai ficar bem, de algum jeito ou de outro.

Era amor antes de dizer olá.  Era sábado. Era amor antes de ser amor.  Éramos do mundo. Andávamos sós.  Até que em um sábado meio ao acaso. Fez-se o laço.  Cachecol para alma. Remédio para a solidão. Vem curar o meu vazio. Vem cicatrizar os meus cortes. Deixa  despir os teus medos.  Esbarra a sua alma na minha. 

Deixa que é sábado. Deixa o mundo lá fora. A trilha sonora continua. Bolero. Nuances de forró. Um pouco de ópera. Dentro de mim uma cidade se acendeu. O seu sorriso agora não mais invertido encontrou o meu.

 Era sábado. Era amor antes de dizer olá. Era sábado. Era amor antes de ser amor.  Somos do mundo.  Transpirávamos solidão. Agora se fez primavera  nas suas mãos.

Sorrisos carregados de esquinas

  

  Somos um emaranhados de cicatrizes.  As fases duras da vida são como pequenos infernos. Provocações que desafiam a sanidade.  Um pé no abismo e outro no chão. A mente tenta esquecer o que o corpo grita. Viver é mais do que suportar é poder transcender nas crises.

  Cicatrizes farão parte. Dos joelhos da infância aos amores platônicos da adolescência. Do primeiro beijo ao coração partido. Da primeira decepção ao mar de ressentimentos.  Do primeiro amor à separação.  Dos amigos à solidão.  Das conversas olhos nos olhos à mensagens virtuais.  Viver é inevitável, mas existir é essencial. Cada fase que passamos perpassa por um emaranhado de cicatrizes, arranhões externos e internos.

  Diria que as cicatrizes internas são mais densas e talvez mais complexas do que as físicas.  Corações partidos. Encontros e desencontros. Ressentimentos. Lutos.  Brigas desnecessárias. Monstros mentais.  Fantasmas do passado. Passamos tanto tempo tentando esconder nossas cicatrizes ao invés de assumir. Afinal é por elas que estamos aqui. Que nos tornamos fortes.  Temos motivos para continuar a lutar. Diria que mais perigosas do que as  cicatrizes provocadas pelos outros, são as que  nós mesmos provocamos com a gente.

  A nossa falta de amor próprio. A mania de nos deixar de lado. A falta de auto estima. As pressões para nos tornamos perfeitos. O medo de falhar. As inseguranças que crescem como erva daninhas.  A falta de tempo. O hábito de complicar as coisas simples. Nos machucamos. Nos colocamos de lado. E quando nos dermos conta. Envelhecemos.  Ranzinzas. Pessimistas.  Ansiosos. E o que sobrará no final?  Uma versão repleta de vazios do que gostáramos de ser e não fomos. Uma coleção de sonhos desperdiçados por medo. Uma existência calcada em apenas viver.  E no final estaremos sozinhos e repletos de hematomas.
Cicatrizes. Histórias. Deslizes farão parte. Aprender assumir os próprios pecados é sabedoria. Parar de esconder ou ficar evitando viver por medo de se machucar de novo  é hipocrisia.


  Viver é ter consciência em ter coragem.  Força para saber que não apenas  se vive, mas existe. E no centro da sua própria engrenagem inventa formas de resistir e lutar contra o que oprime.  Quem conseguir não vacilar mesmo derrotado. Quem mesmo perdido encontra um sentido, uma saída. Mesmo envolto em tempestades, cicatrizes carrega um sorriso carregado de esquinas.