Crônica: Somos a Única Forma de Conserto ou Desconserto de Nós Mesmos



Vira e mexe fico me questionando se não fossem os pequenos fracassos, as vezes em que desafinamos e perdemos o compasso. Se não fossem as brigas perdidas, os laços que formaram nós e a cada esquina que nos afastou de nós mesmos. Se não fossem as cartas não enviadas, as frases ditas de outro modo, o orgulho ferido, a bolsa repleta de mágoas e com certeza não fossem os quase amores.
Se não fossem os pequenos, grandes, erros e muitas vezes os nossos atos falhos. se não fossem os pontos cegos, aqueles defeitos que tentamos toda a nossa vida maquiar em frente ao espelho, mas por algum motivo eles insistem aparecer. Seria bem mais fácil se a gente pudesse de alguma forma apagar todas as partes feias, deixar apenas o que é bonito, belo e colorido. Mas se não fossem as noites mal dormidas, os pedidos de desculpas, às vezes em que não voltamos atrás e com certeza se não fossem as nossas conversas internas, com toda certeza não estaríamos aqui e muito menos perto do que almejamos alcançar. Precisamos das nossas partes feias, precisamos das cenas de horror do filme de nossas vidas e com certeza precisamos demais do trajeto. Afinal estamos aqui, pelos atalhos, por algumas pedras no caminho e assim por diante. Só que o problema é que a gente acaba dando tanta importância e lugar as nossas mágoas, damos boias a elas, acabam por alimentá-las de tal forma, que somos incapazes de desfrutar os prazeres do caminho.

Nos apegamos nas partes feias, somos incapazes de admirar a beleza interna, o que dirá a externa. Esquecemos que somos feitos de lembranças, sejam elas tortas, distorcidas, um pouco borradas e talvez amareladas pelo tempo. Esquecemos em que em nossa gaveta abarrotada de memorias, mesmo o que não é assim tanto motivo de orgulho nos fez chegar exatamente aonde estamos agora ou estamos chegando próximo de nossos objetivos.
Foi os amores não correspondidos. Foram as cartas enviadas, sem ainda resposta. Foram as palavras ditas ao vento. Foram as noites mal dormidas com a cabeça abarrotada de preocupação. Foram os nossos quase amores. Foram aqueles segundos de insanidade. Foram aquelas decepções mais sofridas. Foram os puxões de tapete. Foram as puxadas de orelha para a realidade. Mas será que tudo isso nos tornas imunes a tentar novamente? Será que tudo isso nos fará agir com mais cautela a ponto de evitarmos a todo custo o sofrimento futuro? Com certeza, alguém irá puxar de novo o nosso tapete, levaremos um baile do destino, seremos surpreendidos pela rotina e com certeza iremos quebrar a cara mais algumas vezes. Mas o que fará a gente não desistir? Para alguns o poder da resiliência, para outros algumas doses de paciência, para outros simplesmente não perder a arte de dançar conforme a música. Seria bem mais fácil uma vida reta, sem dramas, sem as cenas de ação, mas que filme chato ao qual estaríamos assistindo não é? Afinal devemos ser o filme que pagaríamos para ir ao cinema, os ingredientes e principalmente as pessoas que gostaríamos de conhecer. Devemos ser o nosso próprio combustível, a nossa própria adrenalina e com certeza é nessas idas e vindas, nestes encontros e desencontros que vamos nos tornando os protagonistas de nossas próprias vidas.

Somos os únicos responsáveis pelas nossas escolhas. Tudo bem o ambiente, a família, os amigos ou seja quais forem os fatores que a gente quiser listar. Mas eles não vivem pela gente, não escolhem pela gente, não arcam as consequências pela gente e muito menos irão transformar os nossos dragões em moinhos. Precisamos sofrer de sofrências, nos inundar de saudades, afundarmos em algumas mágoas, cometer os mesmo erros e assim por diante. O sofrimento cria como uma espécie de casca que nos deixam mais preparados, mais dignos de acertarmos da próxima vez e com certeza nos tornamos emocionalmente mais desenvolvidos.. Insisto em dizer que não existe sucesso sem termos passado pelo sofrimento, mas esse não precisa ser assim tão sofrido. Afinal podemos passar pelos momentos ruins com bom humor, elegância e quem sabe até aprendendo a rir de nós mesmos.
É preciso lembrar que ninguém além de nós mesmos irá nos concertar. Somos os únicos responsáveis por sermos felizes ou tristes, cabe somente a nós mesmos a escolha dos ingredientes que queremos ter ao longo do de nossa jornada. Com isso cabe a tarefa de aprendermos com os pequenos e grandes fracassos a fim de que possamos ir assimilando sabedoria, mas não precisamos lembrar disso a todo momento. Podemos ir transformando isso em uma aprendizado mais leve, mas com certeza o segredo da qualidade de vida é nos lembrarmos que dentro da gente existem todos os ingredientes que podem nos levar a felicidade ou caos.

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